Do medo à ansiedade: um estudo sobre fobia específica

O medo de sofrer é pior do que o próprio sofrimento.
E nenhum coração jamais sofreu quando foi em busca de seus sonhos (Paulo Coelho, 2000).

Do medo à ansiedade: um estudo sobre fobia específica revela que muitas pessoas têm um medo excessivo de sofrer. Mas, o que significa esse transtorno de ansiedade? O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V (p. 189, 2014) conceitua os transtornos de ansiedade como “(…) características de medo e ansiedade excessivos e perturbações comportamentais relacionados”.

Silva (p. 26, 2011) relaciona a emoção do medo às reações primitivas de luta ou fuga e aos transtornos de ansiedade, acrescentando que ela “(…) é um sentimento universal”, filogenético que faz parte do DNA, da existência humana.

Se nos primórdios da era primitiva o medo funcionava como um sistema de proteção por causa dos dinossauros e outros perigos que faziam o coração acelerar descompassadamente, atualmente, a própria condição civilizatória do homem faz com que ele esteja sempre vivenciando situações de medo e ansiedade constantes e extremas (CLARK E BECK, 2012).

Como exemplo, os estressores atuais são os problemas no ecossistema, as guerras entre nações, a insegurança nas ruas por medo de: assaltos, sequestros, ameaças de bandidos que estão por toda parte. Contudo, a própria maneira de o homem existir no mundo, a cobrança excessiva da sociedade que valoriza o consumismo desenfreado gera muito medo, muita insegurança, muitas incertezas e consequentemente muita ansiedade.

Nolen-Hoeksema et al. (p. 472, 2012) afirmam que “(…) a resposta mais comum a um estressor é a ansiedade”.

Gardner e Bell (p. 23, 2004) associam a ansiedade a “(…) um estado de excitação nervosa estimulado por medos que aparentemente não podem ser dissipados”, fazendo com que nossa mente funcione ininterruptamente, ruminando sem descanso sobre aquilo que provocou o medo.

A sensação de estar permanentemente ligado no problema gera muito desconforto físico e mental, possibilitando comportamentos de evitação, pânico, preocupação excessiva e exagerada em relação a vários aspectos do cotidiano do indivíduo ou ao futuro.

Pode-se dizer que a diferença entre as emoções de medo e ansiedade é que na primeira há uma avaliação de uma iminente ameaça e na segunda uma reação emocional ao estímulo amedrontador (CLARK E BECK, 2012).

Quando uma pessoa está ansiosa, ela está percebendo antecipadamente os eventos, reais ou imaginários, como algo muito ameaçador, imprevisível que lhe causa sensações de desamparo, provocando-lhe o medo de perder o controle, de não ter certeza em relação ao futuro, ativando internamente seu sistema nervoso autônomo o que provoca reações físicas como taquicardia, descontroles emocionais e respostas comportamentais desadaptativas (CLARK E BECK, 2012).

O modelo cognitivo da ansiedade

O modelo cognitivo da ansiedade pode ser demonstrado graficamente como a figura 1 a seguir:

Clark e Beck (2012) explicam que cognitivamente a ansiedade está ligada à crença de vulnerabilidade, ou seja, percebem as ameaças tanto interna como externamente com uma lente de aumento, fazendo uma avaliação muito ampliada e disfuncional da realidade.

Há muita dificuldade de as pessoas ansiosas perceberem “(…) os aspectos de segurança de situações avaliadas como ameaça” (CLARK e BECK, p. 43, 2012), subestimando-se quanto a sua habilidade de enfrentamento de um “(…) dano ou perigo antecipado” (CLARK e BECK, p. 43, 2012).

Silva (p. 30, 2011) informa que estudos realizados nos Estados Unidos apontam que “(…) 25% das pessoas apresentam algum tipo de transtorno de ansiedade ao longo de suas vidas” e há evidências de que um quarto da mesma porcentagem da população em geral em algum momento sofre ou sofrerá com este transtorno, o que é considerado um percentual significativo.

No DSM-5 (2014) os transtornos de ansiedade estão classificados como: transtorno de ansiedade de separação, mutismo seletivo, fobia específica, transtorno de ansiedade social (fobia social), transtorno de pânico, agorafobia, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno induzido por substância/medicamento, transtorno de ansiedade devido a outra condição médica, outro transtorno de ansiedade não especificado.

Como não se pretende aprofundar os estudos sobre todos os transtornos de ansiedade, o foco do próximo item será apenas a Fobia Específica.

Fobia Específica – desvendando um dos tipos dos transtornos de ansiedade

Knapp e colaboradores (p. 248, 2004) introduzem o assunto explicando que o “(…) medo, esta reação filogeneticamente determinada, desenhada pela evolução” para proteger-nos de riscos iminentes pode se transformar em fobia.

Rangé (p. 211, 2001) afirma que, além das “(…) predisposições filogenéticas”, da característica introvertida, dependente e do alto grau de neuroticismo dos fóbicos, é necessário que sejam observados os ganhos secundários destes indivíduos na manutenção da fobia, como chamar atenção, obter vantagens pessoais ou esquivar-se de responsabilidades.

Gilian Butler (in HAWTON et al., Capítulo 4, p. 139, 1997) afirma que “(…) um medo persistente e excessivo de um objeto ou situação”, que não representa necessariamente uma ameaça real, é evitado pelo indivíduo e reconhecido por ele como um medo irracional.

Ainda segundo o autor acima, o medo excessivo interfere diretamente no cotidiano da pessoa por ser incapacitante e não adaptativo, levando-a a diminuir esta emoção quando procuram lugares em que se sentem mais protegidas ou a evitar as situações por elas tão temidas.

O medo quando muito intensificado e persistente causa reações fisiológicas, provocando na pessoa um temor, por ela achar que está muito doente ou que vai morrer, o que a faz ter um ataque de pânico ao perceber o coração acelerado demais, ter falta de ar que parece sufocá-la, tremores pelo corpo causando-lhe arrepios, a sensação de que sua glote está se movimentando irregularmente ao ingerir alimentos etc.

Para Gardner e Bell (p.40, 2004) as fobias específicas causam muitas dificuldades na vida pessoal e ocupacional do indivíduo, pois eles reagem ansiosamente quando se expõe à situação ou ao objeto da sua fobia.

De acordo com Leahy (p.49, 2011) existem “(…) duas teorias principais” para a origem de uma fobia específica: a primeira teoria está ligada a aprendizagem direta, ou seja, quando a pessoa experiência situações que de algum modo lhes causam dor; ou indireta, a partir da modelação.

Barros Neto (p. 100, 2000) afirma que não é condição sine qua non a existência de um trauma nas pessoas que têm fobia específica, pois segundo ele “a maioria dos fóbicos não apresenta história de trauma”. O autor ressalta ainda que outros sintomas podem surgir paralelamente à fobia específica como a agorafobia, transtornos de humor como desprazer ou apatia, perda de interesse pelas coisas, baixa autoestima ou melancolia, que pioram o quadro.

Hawton et al. (1997) explicam que uma fobia pode ser aprendida aos poucos por meio de episódios amedrontadores em condicionamento direto, também por observação (condicionamento indireto), transmissão genética ou informações, que se repetem sistematicamente, acarretando o transtorno.

Pode ser dado como exemplo, uma pessoa com medo excessivo de engasgar após escutar da professora de ciências biológicas que uma menina morreu sufocado com espinha de peixe: Se eu comer espinha de peixe, então vou morrer sufocada”. No caso de regras pode-se exemplificar da seguinte forma: “Devo ficar calada, pois caso contrário vão rir de mim”.

De acordo com Gardner e Bell (2004) as fobias específicas dividem-se em vários tipos: medo de animais ou insetos, altura, agulhas, tempestades, lugares confinados, multidões, mar, sangue, injeção, dentista, túneis, pontes, lugares fechados, aviões, elevadores, dirigir um carro, engasgar com alimentos ou líquidos ou de se asfixiar entre outros.

De acordo com Nolen-Hoeksema et al., p. 224, 2012, alguns transtornos de ansiedade como as fobias, o pânico ou estresse pós-traumático podem ter sua origem no condicionamento pavloviano (clássico) que influencia “nas respostas emocionais como o medo” (NOLEN-HOEKSEMA ET AL., p. 224, 2012), como também do condicionamento operante (skinneriano). Fobias podem surgir a partir de vivências traumáticas ou podem ser aprendidas por observação. No primeiro caso, o indivíduo tende a evitar situações que os façam lembrar do objeto fóbico. Por outro lado, se uma criança tiver uma mãe medrosa em excesso, ela poderá desenvolver as mesmas reações fóbicas ao observar no seu dia-a-dia o comportamento de sua genitora, passando a reagir do mesmo modo. (NOLEN-HOEKSEMA ET AL., p. 510, 2012).

Pode-se fazer a seguinte análise para demonstrar esta teoria:

Desde a infância a pessoa X sofre com alergias respiratórias, asma e refluxo gástrico, instaurando-se em sua mente a sensação de engasgo e sufocação, além do medo de morrer, acionando o seu sistema reflexo de defesa inato que desencadeia a produção excessiva de saliva quando come determinados alimentos. Esta ativação do modo de ameaça primitivo pode ser relacionada com o condicionamento clássico a partir da repetição do processamento das informações e o desencadeamento de respostas inibitórias do sistema nervoso central.

Após um tempo, alguns vieses cognitivos distorcidos começam a surgir e a pessoa pensa: “Vou morrer engasgada”, por exemplo, percebendo a situação de modo catastrófico. Ela começa a ter sintomas fisiológicos como: salivação excessiva, taquicardia, garganta fecha a qualquer entrada de alimento ou líquido na boca em função da ansiedade antecipatória e medo de engasgar ao ouvir um relato de sua professora de ciências biológicas sobre uma menina que morreu engasgada com espinha de peixe, o que provoca em X comportamentos de evitação dos alimentos e líquidos, de maneira muito intensa instaurando-se aí o condicionamento operante.

É fundamental enfatizar que apesar de ainda não estar muito claro se a fobia específica é geneticamente herdada ou aprendida por meio de modelação, a maior herança será a “(…) vulnerabilidade ao medo em vez da fobia em si (NOLEN-HOEKSEMA ET AL., p. 510, 2012).

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-V. p. 189. Artmed Editora S.A. Porto Alegre/RS: 2014.

BARROS NETO, Tito Paes de Barros. Sem Medo de Ter Medo. Um Guia Prático para Ajudar Pessoas com Pânicos, Fobias, Obsessões, Compulsões e Estresse. 1.ed. p. 100, Casa do Psicólogo. São Paulo/SP: 2000.

CLARK, David A.; BECK, Aaron. Terapia Cognitiva para os Transtornos de Ansiedade. p. 43. Artmed Editora S.A. Porto Alegre/RS: 2012.

COELHO, Paulo. Às margens do Rio Piedra eu Sentei e Chorei. Editora Rocco. Rio de Janeiro/RJ: 2000.

GARDNER, James; BELL, Arthur H. Superando a Ansiedade, o Pânico e a Depressão. Novas Maneiras de Recuperar a Autoconfiança. p. 23 e 40. Madras Editora Ltda. São Paulo/SP: 2004.

BUTLER, Gilian. Distúrbios Fóbicos. In HAWTON et al., Terapia Cognitivo-Comportamental para Problemas Psiquiátricos: Um Guia Prático, 1.ed. capítulo 4, p. 139. Martins Fontes. São Paulo/SP: 1997.

HAWTON, K. et al. Terapia Cognitivo-Comportamental para Problemas Psiquiátricos. Um guia prático. 1.ed. capítulo 1, p. 11. Martins Fontes. São Paulo/SP: 1997.

KNAPP, Paulo e colaboradores. Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática Psiquiátrica. 1 ed. p. 248. Artmed Editora S.A. Porto Alegre/RS: 2004.

LEAHY, Robert L. Livre de Ansiedade.  1.ed. p. 49 e 53. Artmed Editora S.A. Porto Alegre/RS: 2001.

NOLEN-HOEKSEMA ET AL. Atkinson & Hilgard. Introdução à Psicologia.. Tradução da 15ed. norte-americana. p. 224, 472 e 510. Cencage Learning. São Paulo/SP: 2012.

RANGÉ, Bernard (organizador). Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais – Um diálogo com a psiquiatria. 1.ed. p. 211. Artmed Editora S.A. São Paulo/SP: 2001.

 

 

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